Imagem capa - A modernidade tem dessas coisas por Micheli Ribas
Coisa de mãe e filha

A modernidade tem dessas coisas





Quando eu era criança, eu lembro que era uma alegria o dia que meu pai me levava em uma locadora locar um vídeo, ali na Rua Chile, no Rebouças, em Curitiba. Tenho a lembrança de uma casa, com vários cômodos e várias sessões. A minha preferida, a infantil, que ficava lá ao fundo, lugar onde eu ia direto, super ansiosa. Eram dias muito especiais.


Tempos depois, lembro de poder escolher a locadora que iríamos, pois na Av. dos Estados chegou a ter três delas em apenas duas quadras. Seguíamos clientes desse seguimento enquanto as fitas VHS eram sucesso absoluto entre os cinéfilos de plantão.


Naquela época, a gente costumava ver a maioria dos filmes uma única vez: no cinema ou quando alugava a fita de vídeo. Exceto, claro, os filmes que se repetiam na TV aberta - com destaque para a adorada sessão da tarde ou quem tivesse alguma dessas fitas comprada.


Quando morei sozinha por alguns anos da primeira graduação em Florianópolis, chegava a sexta-feira à noite e quase sempre lá ia eu garantir os títulos do fim de semana.


A geração de hoje nem imagina como era esse mundo de ter de alugar um filme para poder assistir. Meu amor aos filmes, passado de mãe pra filha, e a facilidade de adquirir os DVDs até em supermercado até pouco tempo, fez com que adquiríssemos vários títulos clássicos enquanto minha filha era menor. Era minha forma de evitar que ela fosse exposta a TV aberta e, principalmente, as propagandas infantis, mesmo na TV à cabo. Opção nossa. E funcionou por alguns anos. Confesso que curti e muito esse tempo e vi, sim, junto com ela, todos os clássicos infantis. Adoro!!!


Mais tarde - anos mais tarde, bem mais tarde que a maioria - nós fomos nos render ao serviço de streaming. Ainda assim, nossa sede por ver filmes diferentes e interessantes - nos levou, como na minha infância, às videolocadoras. Minha filha ia com a mesma alegria e ansiedade decidir conosco qual seria o título da vez. É verdade que mesmo nós que tínhamos esse costume, fomos deixando de ir com a mesma frequência de antes.


Ano após anos, vi locadoras fecharem. Hoje, meus olhos ficaram marejados ao entrar em uma gigante que resistiu mais que todas, a Cartoon Vídeo. Sempre que queríamos algo diferente, era lá que nós encontrávamos. Qualquer título que quiséssemos assistir. A placa informava que após 33 anos, a loja fechava suas portas. O acervo estava sendo vendido e foi impossível não ficar com o coração partido ao ver as prateleiras vazias. Escolhi ali poucos, mas alguns títulos como valor emocional mesmo. Cheguei tarde, quase tudo já tinha sido vendido. Ironia, pois na hora de locar as pessoas não estavam sendo tão rápidas hoje em dia. Saí com a minha última sacolinha de lá.


Sem filosofar ou entrar no mérito da nova revolução industrial, queria deixar aqui a minha homenagem, a minha despedida, e o meu pesar. O tempo passa, as coisas mudam, mas não é por isso que seremos imunes a lamentar e a sentir o saudosismo.